
Recentemente o estado americano do Arizona aprovou projeto de lei que bane das escolas públicas as disciplinas de estudos étnicos que promovam o que o legislador denomina de “consciência racial”. Esta decisão deve repercutir também no ensino de disciplinas tradicionais como história e literatura. Acima de tudo, o legislador parece acreditar que a lei poderá remover a discussão política da sala de aula. Esta proposta partiu sem dúvida de uma compreensão errada da função da educação.
É neste sentido que o professor Stanley Fish, em artigo no blog “Opinionator”, do jornal The New York Times, de 17/5/2010, critica a aprovação da lei. Segundo ele, o erro básico está em acreditar que a sala de aula politizada pode ser curada ao ser politizada em outra direção, a saber, pela proibição da discussão dos problemas étnicos. Neste caso, a lei aprovada é resultado da agenda política de seus autores.
Ao criticar a lei citada, Fish traz o educador brasileiro Paulo Freire para o centro do debate. Acontece que a filosofia da educação de Freire está sendo usada para validar um projeto de educação em Tucson que é um dos alvos do legislador. Como sabemos, Freire acredita que toda educação é política. Para ele, a educação deve ser concebida como esforço radical para a liberdade. Em vez de considerar a educação mais voltada para ação como tendo como alvo da instrução escolar a atividade revolucionária, como fazem os legisladores citados, Fish vê, por exemplo, no debate das tradições étnicas um modo de ampliar a consciência crítica dos estudantes, algo que não produz deliberadamente “guerreiros culturais”.
Vejamos a situação brasileira: com a aprovação da Lei 11.645/08 tornou-se obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e da cultura indígena na educação básica. Portanto, contrariamente ao que se passa naquele estado americano, desde 2008 a discussão das relações étnico-raciais é ponto obrigatório no currículo escolar. Por aqui sabemos que ler, discutir e escrever em sala de aula, quando estas atividades são conduzidas por um mestre com cultura e bom senso, pode nos levar a perceber as diferenças sociais, culturais e históricas, isto é, que pertencemos a muitas culturas.
Na verdade, histórias e experiências discutidas na escola permitem que nos observemos, e também que nos recriemos. Se considerarmos que a linguagem nada mais é que interação social, podemos, através da discussão livre, ampliar ao máximo as metáforas e os vocabulários alternativos. E isso, já dizem os filósofos pragmáticos, pode contribuir para que, através desses vocabulários, novos direitos possam surgir na sociedade. Nas aulas de história, literatura, teatro, música ou dança temos a possibilidade de refletir sobre a contribuição do povo negro, do indígena e dos imigrantes na formação da sociedade nacional. O que pode nos levar a explorar novas possibilidades de convivência e solidariedade.