“Toda a vida do homem se faz em educação e por educação.” (Anísio Teixeira)
Não há dúvida que hoje temos um grande desafio na área da educação: precisamos elevar a qualidade do ensino da escola pública e ao mesmo tempo adequar o ensino à Era da Informação. Esta realidade exige que sejam viabilizados projetos a curto e a longo prazo. No entanto, a escola pública não avançou em nada nos últimos anos. Ainda assim, nem todos parecem dar-se conta do problema. É desanimador reconhecer que não ocorre uma grande discussão na sociedade que poderia viabilizar a transformação desta realidade.
O fracasso do ensino na escola pública vem sendo demonstrado pelos resultados de avaliações nacionais e internacionais. Note-se igualmente que o desempenho da escola particular vem caindo nos últimos anos. Pode-se dizer que especialmente quando o desempenho da escola particular é comparado ao que ocorre em outros países ela não apresenta o nível elevado que se esperaria. Pedro Demo, da Universidade de Brasília, notou em um estudo de 2007 que também há sinais de crise na escola particular. Não se pode dizer, ademais, que o que ocorre na educação em geral seja uma catástrofe silenciosa. Todavia não há consenso sobre como chegamos nessa situação nem sobre as possíveis soluções para o problema. Certamente um dos motivos da péssima qualidade do ensino é que a educação básica não é prioridade no Brasil. Para piorar as coisas, o sistema educacional, que é refém de um centralismo sem sentido nos dias de hoje, tolera novas idéias em uma escala mínima e procura reduzir as pressões por mudanças mais amplas. Na verdade, o estado se faz presente de tempos em tempos no ensino para criar mais burocracia. De certo modo, a ineficiência do ensino revela a ineficiência social do governo.
É quase um lugar-comum reconhecer que na questão da qualidade do ensino, em relação a países mais industrializados, o Brasil está há décadas atrasado. Todavia em relação a países do Mercosul, como o Chile ou a Argentina, o Brasil também decepciona. Países como o Chile, cuja educação se destaca como a melhor da América Latina em exames internacionais na educação básica, tem ousado mais, experimentado mais na busca por uma maior valorização do ensino e do professor. Por que só o Brasil não pode dar certo? Qual é a questão que está por trás deste atraso? Parece evidente que falta em primeiro lugar vontade política para mudar. Além disso, o fato de mesmo as autoridades do ensino desconhecerem a história e a filosofia da educação faz com que procurem todos os dias reinventar a roda.
Na década de 1970, o educador Anísio Teixeira observou que a política educacional nos países desenvolvidos entrava em uma nova fase. Esta fase que ele denominou de política da “educação de cada um” constituía-se na superação da fase anterior a da política da “educação de todos”. Em outras palavras, a ênfase passou para a educação individualizada: o objetivo era educar não apenas todas as crianças, mas cada uma. Note-se que não se trata de uma mudança de didática, isto é, de tecnologia ou dos meios instrucionais. Não, esta é uma mudança mais ampla: uma mudança de paradigma em filosofia da educação. Afinal, quais são as perspectivas para a educação brasileira no século XXI? Não podemos dizer que atualmente o Brasil está em condições de implementar uma mudança daquela natureza, tendo em vista a política minimalista imposta pelos partidos políticos e a alienação da maior parte da população. Além disso, é interessante esclarecer que a possibilidade de uma ampla reforma no sistema educacional precisa, em primeiro lugar, enfrentar o ceticismo dos próprios administradores educacionais.
Nos anos 1990, quando a fase de expansão das matrículas alcançou seu ápice, o Brasil obteve a democratização da escola pública. Por outro lado, com o advento do ensino de massas, houve um grande impacto no sistema de ensino que repercutiu na qualidade. Naquele período, já se deveria ter iniciado o processo de valorização da educação básica. No final daquela década, pelo menos 90% da população de jovens até os 17 anos estava matriculada na escola. Este número não deve ser ultrapassado nos próximos anos, e segundo o Inep/MEC já se registra um decréscimo no número de matrículas na educação básica desde 2000. Essa realidade mostra que o momento em que vivemos é o da superação da fase de preocupação com a quantidade de alunos e com o número de escolas. É evidente que a preocupação central agora deverá ser em favor do processo de ensino e da sua qualidade.
Presentemente, devemos repensar o ensino escolar em sua função e em seus valores, trazendo o aluno para o centro da aprendizagem, o que não é uma tarefa simples. A “escola responsável” segundo Peter Drucker deve ensinar a “indivíduos” ao invés de a “estudantes”. De fato, para atingirmos este objetivo será necessário substituir o modelo de massas, que é um legado da era industrial, por um modelo mais individual de ensino. Este novo modelo deve oferecer uma maior diversidade de formas de ensino.
Uma escola responsável deverá educar cada criança e cada jovem para que possam enfrentar os desafios de viver em um mundo de interdependência e mudança. Para iniciar este processo, a escola pública deverá se transformar em uma instituição aberta, ou seja, completamente inserida na sociedade. Um dos pontos de partida será iniciar o processo de descentralização do sistema educacional. Esse primeiro passo, que irá exigir coragem, imaginação e liderança política sem precedentes, faz parte da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Referências
DEMO, Pedro. Escola pública e escola particular: semelhanças de dois imbróglios educacionais. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, vol.15, no.55, Rio de Janeiro, Abr./Jun. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ensaio/v15n55/a02v1555.pdf
DRUCKER, Peter. Sociedade Pós-Capitalista. São Paulo: Pioneira, 1993, p. 151-163.
TEIXEIRA, Anísio. Educação, suas fases e seus problemas. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília, v.56, n.124, out./dez. 1971. p.284-286. Disponível na Biblioteca Virtual Anísio Teixeira em
[http://www.prossiga.br/anisioteixeira/eng/index.html]
