
“Veja o interior das coisas. Sobre a qualidade ou o valor de nenhuma
delas te iluda “. (Marco Aurélio, Meditações)
Não somente o fracasso do ensino demonstrado pelos resultados de avaliações nacionais e internacionais (por exemplo, o Pisa*), mas também o desafio de adequar-se à Era da Informação exige que sejam viabilizados projetos a longo prazo para a escola pública. Precisamos, mais do que nunca, de novos modos de pensar, novas maneiras de ensinar, novas idéias, novos livros, novos experimentos para transformar esta realidade.
No entanto, nosso sistema educacional tolera novas idéias em uma escala mínima e procura reduzir as pressões por mudanças mais amplas. Basta observar o nível e o comportamento das pessoas que são comumente escolhidas por nossos políticos para ocupar os altos cargos da educação para perceber que não há interesse nenhum em questionar o status quo em educação. Para piorar as coisas, a maioria desses bozos, que nunca gerenciaram nada, em geral insistem pateticamente em instituir algo como um ISO na educação, o que é uma rematada bobagem. Parece até que os secretários de educação do Brasil são fabricados em série e se utilizam do mesmo kit de idéias bizarras para executar seu “trabalho”. De fato, no quadro mais amplo, o governo atual já está aí há quase oito anos e não fez absolutamente nada para garantir a melhoria da qualidade do ensino. Só há propaganda que serve para jogar poeira nos olhos da população. Na verdade, vamos terminar onde sempre estivemos: entre os últimos países do mundo em matéria de educação e cultura.
É quase um lugar-comum reconhecer que na questão da qualidade do ensino, em relação a países mais industrializados, o Brasil está há décadas atrasado. Todavia em relação a países do Mercosul, como o Chile ou a Argentina, o Brasil também decepciona. Países como o Chile, cuja educação se destaca como a melhor da América Latina em exames internacionais na educação básica**, tem ousado mais, experimentado mais na busca por uma maior valorização do ensino e do professor. Por que só o Brasil não pode dar certo? Qual é a questão que está por trás de nosso atraso? É evidente que falta a nossas autoridades, entre muitas outras coisas, um conhecimento mínimo da história da educação no Brasil e no mundo. O que, aliás, como ressaltam os eruditos italianos N. Abbagnano e A. Visalberghi, na introdução à sua magistral História da Pedagogia, não se trata de mera curiosidade arqueológica, mas, sim, de uma “necessária iluminação dos problemas atuais mediante o estudo de suas origens e das soluções ensaiadas no curso dos séculos“. Tal conhecimento se faz necessário, já que, como alguns comentaristas ressaltam, o fato de desconhecer a educação faz com que as autoridades procurem todos os dias reinventar a roda.
Na década de 1970, o educador Anísio Teixeira observou que a política educacional nos países desenvolvidos entrava em uma nova fase. Esta fase que ele denominou de política da “educação de cada um” constituía-se na superação da fase anterior a da política da “educação de todos”. Em outras palavras, a ênfase passou para a educação individualizada: o objetivo era educar não apenas todas as crianças, mas cada uma. Note-se que não se trata de uma mudança de didática, isto é, de tecnologia ou dos meios educacionais ou instrucionais. Não, esta é uma mudança mais ampla: uma mudança de paradigma em filosofia da educação. Afinal, quais são as perspectivas para a educação brasileira no século XXI? Não podemos dizer que atualmente o Brasil está em condições de implementar uma mudança daquela natureza, tendo em vista a política minimalista imposta pelos partidos políticos e a alienação da maior parte da população.
No Brasil, a fase de expansão das matrículas na escola pública alcançou seu ápice nos anos 1990. No final daquela década, pelo menos 90% da população de jovens até os 17 anos estava matriculada na escola. Este número não deve ser ultrapassado nos próximos anos, e segundo o Inep/MEC já se registra um decréscimo no número de matrículas na educação básica desde 2000. Essa realidade mostra que o momento em que vivemos é o da superação da fase de preocupação com a quantidade de alunos e com o número de escolas. É evidente que a preocupação central agora deverá ser em favor do processo de ensino e da sua qualidade. Na verdade, a dicotomia quantidade vs. qualidade no ensino é falsa. Seja como for, muito pouco foi feito pela qualidade do ensino naquele período.
Presentemente, devemos repensar o ensino escolar em sua função e em seus valores, trazendo o aluno para o centro da aprendizagem, o que, diga-se de passagem, não é uma tarefa simples. A “escola responsável” no dizer do escritor Peter Drucker deve ensinar a “indivíduos” ao invés de a “estudantes”. Certamente para atingirmos este objetivo será necessário substituir o modelo de massas, que é um legado da era industrial, por um modelo mais individual de ensino, que ofereça uma maior diversidade de formas de ensino. Sabemos, porém, que inovações institucionais básicas levam décadas para se concretizar. De fato, não podemos nos iludir pensando que entre nós esta mudança será fácil, pois, entre outras coisas, como Teixeira observou, as nações industrializadas iniciaram esta tarefa no relativo “sossego do passado”, enquanto nós teremos de realizá-la na confusão de um mundo pós-moderno e globalizado.
A filósofa alemã Hannah Arendt concluiu sua reflexão sobre a crise na educação em nosso tempo afirmando que a educação é “o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele.” Nós brasileiros estamos preparados para assumir tal responsabilidade? Infelizmente, nossas autoridades continuam brincando com a coisa mais preciosa de todas: o futuro de nossas crianças e adolescentes. Uma escola responsável deverá educar cada criança e cada jovem para que possam enfrentar os desafios de viver em um mundo de interdependência e mudança. Para iniciar este processo, a escola pública deverá se transformar em uma instituição aberta, ou seja, completamente inserida na sociedade. Um dos pontos de partida será iniciar o processo de descentralização do sistema educacional. Esse primeiro passo, que irá exigir coragem, imaginação e liderança política sem precedentes, faz parte da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Marco Antônio Bomfoco
* The OECD Programme for International Student Assessment (PISA) (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Ver site: [http://www.pisa.oecd.org/]
** Veja a reportagem da Folha de São Paulo de 03/09/2008: [http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u441170.shtml]
Referências
ABBAGNANO, N. & VISALBERGHI, A. Historia de la Pedagogía. México-Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2003.
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
DRUCKER, Peter. Sociedade Pós-Capitalista. São Paulo: Pioneira, 1993, p. 151-163.
TEIXEIRA, Anísio. Educação, suas fases e seus problemas. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília, v.56, n.124, out./dez. 1971. p.284-286. O texto pode ser acessado na Biblioteca Virtual Anísio Teixeira em[http://www.prossiga.br/anisioteixeira/eng/index.html]

Nos últimos anos, como resultado do pragmatismo da sociedade moderna, vem ocorrendo a redução da fronteira entre educação geral e educação profissional. Neste contexto, assistimos a uma crescente necessidade de especialização imposta pelo mercado de trabalho, que termina por descaracterizar a formação geral do estudante, propiciando até mesmo certo desinteresse pelo exercício dos valores democráticos.